Detalhe da montagem do trabalho Sabiás, Galeria Iberê Camargo, Usina do Gasômetro, Porto Alegre

 

Tique-taque, tremor das pequenas coisas
fotografias de Leandro Selister

Galeria Iberê Camargo, Usina do Gasômetro, Porto Alegre/RS  (23/04 a 23/05/2004)
Galeria de Arte da Casa da Cultura Caxias do Sul - RS (06/07 a 30/07/2004)
Museu Leopoldo Gotuzzo, Pelotas - RS (13 a 30/10/2004)
 

 


Segurar um passarinho
na concha meio fechada da mão é terrível,
é como se tivéssemos os instantes trêmulos na mão.
(Clarice Lispector)

 

Leandro Selister nos mostra o movimento das coisas de dentro da casa. Determina cortes precisos. Fixa instantes para apertar o botão e congelar cada cena. Quebra a seqüência natural do tempo. O que acontece entre um minuto e outro, um segundo e outro, é o mistério da vida encerrado talvez nas frações imperceptíveis de uma outra dimensão de tempo que não percebemos. Não se trata aqui da representação real em 24 quadros por segundo. O fotógrafo cria a seqüência de instantes conforme um ritmo particular, seu modo de perceber a natureza em constante transformação. De dentro da casa, Leandro Selister torna-se uma espécie de guardião do tempo, vigia cada movimento do mundo como um voyeur atento e cuidadoso.

Em frente a sua janela, um sabiá insiste em construir seu ninho sobre um pedaço de calha de alumínio. Para não ser percebido, durante quase três meses o fotógrafo registra as peripécias do passarinho através de uma pequena abertura improvisada entre papéis colados sobre as vidraças. Mas a calha, dura e lisa, não prende direito os galhos e o ninho incipiente cai e se desfaz muitas vezes. Movido pela força da vida e da esperança, o bichinho, como num trabalho de Sísifo, reconstrói árdua e inutilmente sua morada até que os vizinhos colocam um arame para que os galhos fiquem presos à calha. O pássaro pode finalmente chocar seus ovos com segurança. A chegada dos filhotes é esperada com entusiasmo. Aos poucos, três bicos quase imperceptíveis surgem do ninho para receber o alimento e descobrir a luz. Ao cabo de alguns dias, apenas um dos recém-nascidos sobrevive.

 

        


Sabiás. Fotografia digital. Série de 400 fotografias. 6 x 330 cm. 2003


Como medir no tique-taque do relógio a pulsação do corpo, matéria elástica, fragilidade do instante que nos liga à vida?

No trabalho com os pássaros, a série de fotogramas é disposta de forma linear para contar a seqüência da história. Assim, o tempo é reversível, pode ir e vir para trás conforme o deslocamento do olhar e do corpo. Na rede ortogonal que utiliza para dispor os outros trabalhos, a visão em seqüência passa a ser menos importante e menos perceptível.

Nesta série de imagens do cotidiano, os ponteiros da máquina fotográfica marcam o compasso alternado de vida e morte, os passos vagarosos das nuvens que surgem e desaparecem, da begônia que floresce e murcha para tornar a nascer. Será o tempo da flor ou da tartaruga o mesmo tempo da montanha? Cada coisa tem um ritmo próprio, exige um jeito para ser observada. O tempo interno precisa de liberdade para compreender esses diferentes ritmos. A matéria dessa exposição é o movimento das pequenas coisas que nossa velocidade interna tantas vezes nos impede de perceber.

Teresa Poester, artista plástica, Janeiro/2004

 












 


Montagem da exposição em Pelotas
Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo


Montagem da exposição em Caxias
Casa de Cultura Perci Varags

 


Leia
aqui texto do jornalista Nivaldo Pereira
do Jornal Pioneiro - Caxias do Sul


 

 



O projeto foi lançado em livro em dezembro de 2004
Editora Escritos, Porto Alegre - RS, 112 p., 2004

 


Tique-taque, tremor das pequenas coisas de Leandro Selister
Márcia Tiburi, filósofa

A fotografia de Leandro Selister nos permite uma intensa experiência com o olhar e faz o olhar encontrar-se no tempo. Nos faz pensar e sentir, acordar para a construção do sentido e para a verdade contida no acaso ao qual está atento apenas o olho sensível. Leandro Selister fotografou um ninho de pássaros que apareceu no visível espaço minúsculo de sua janela onde tudo podia ser invisível.

Tantas vezes não vemos o que está a nossa frente. Ali ele cuidou da específica e especial experiência da fotografia, a captura do instante visível e a demonstração do invisível que hoje podemos ver por meio de seu processo. O que não podia ser visto apresentou suas provas. Acontecimento único na história da imagem como era único o instante vivido, estamos agora diante das 300 fotografias que se compõem como livro: uma intensa poética visual cujo acordo com a vida se dá na passagem ao todo por meio de instantes que viraram imagem.

O que foi a vida dos pássaros fazendo seu ninho, procriando, nascendo, morrendo? Seria a vida de todos? A experiência com a arte é nestas fotos mediação para a natureza e esta caminho que nos leva a ver o que não pode ser visto senão por meio de muito silêncio e atenção.

O livro guarda esta atenção pela intensidade dos instantes cristalizados em imagens que ameaçam a repetição e a frustram. Neste impossível de ser guarda-se um mistério, o da enormidade dos pequenos fatos. Do sublime no ínfimo. O tempo ali não é apenas passagem ou sentido, mas penumbra do presente que passa tênue guardando-se no momento seguinte, lembrando na filigrana da existência o passado imediato e distante. Olhar, neste caso, tornou-se sentir. Sentir que nos leva à seriedade de uma avaliação sobre o tempo.

O tempo das fotografias marca o tempo no avesso do relógio, as pequenas coisas interrompem os ponteiros que, confusos, fazem festa abrindo e fechando nossas pálpebras para o inacreditável da existência: tremor das pequenas coisas.