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Para quem já viveu o cotidiano da Trensurb, já pensou nas coisas
essenciais da vida num campus da UFRGS ou já viu um fotograma
na Galeria Lunara da Usina do Gasômetro, o trabalho de Leandro Selister
dispensa apresentações. O artista, nesses três momentos de sua obra,
ocupou-se, com maior ênfase, do espaço.
Depois disso, começa a utilizar o tempo, a expressar a noção do tempo em
suas obras. São seqüências fotográficas que registram o passar do tempo.
“Nos últimos dois anos defini como campo de atuação para o meu trabalho
com fotografia os limites de minha casa. Uma flor que cresce, o movimento
das nuvens, o amanhecer, o anoitecer, cenas do dia-a-dia que na maioria
das vezes não temos tempo de observar. Aguardo o tempo passar, a vida
acontecer.”* De outubro a dezembro de 2003, por exemplo, acompanhou,
fotografando da janela da sua sala, um casal de sabiás desde a construção
de seu ninho até o primeiro vôo do único dos três filhotes que sobreviveu.
Este foi o trabalho “Tique-taque tremor das pequenas coisas” apresentado
primeiramente em uma exposição e, posteriormente, transformado em livro.
Em trabalhos anteriores aos mencionados acima, as idéias de espaço e tempo
ainda não estavam presentes - pelo menos na consciência do artista - do
modo que utiliza hoje. No entanto, todos os trabalhos dessa época
consistiam em seqüências fotográficas, na maioria das vezes auto-retratos.
Em cada obra, as fotografias foram dispostas de forma seqüencial. Selister,
portanto, intuitivamente, como me declarou, sempre trabalhou com
seqüências. A consciência disso veio somente com os trabalhos com o tempo:
as seqüências do tempo.
Contudo, Leandro, nos trabalhos em que a preocupação maior foi com o
espaço, também se ocupou do tempo, ainda que fosse o tempo congelado ou
cristalizado de figuras humanas verdadeiras. E nos trabalhos onde a
preocupação com o tempo foi maior, a importância do espaço esteve sempre
presente, seja o de sua própria casa, espaço decidido por ele como campo
de atuação para a realização do seu trabalho, seja o espaço fotografado
como referencial para a passagem do tempo. E, junto com tudo, a seqüência
continuou existindo.
Seqüência, espaço, tempo são, portanto, elementos fundamentais e
indispensáveis na obra de Leandro. No trabalho que nos apresenta nesta
exposição, uma instalação que consiste no tempo passando na janela de sua
sala de estar, parece-me que esses elementos encontram-se conscientemente
unidos de forma igualitária, como se fosse uma síntese da obra do artista
até o presente momento.
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Marco de Araujo, Artista Plástico
Prof. Titular do Curso de Pedagogia da Arte da FUNDARTE/UERGS
Doutor em Artes Visuais na Universidad Complutense de Madrid
Curador da Exposição |
* Leandro Selister, Tique-taque tremor das pequenas coisas,
Escritos, Porto Alegre, 2004.


66 Imagens projetadas em
slides, totalizando 12 horas. (detalhe)
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