Segunda-feira, 26/07/2004, das 06:00 às 18hs
Instalação, 2005
Galeria de Arte Loíde Schwambach - FUNDARTE - Montenegro, RS




Para quem já viveu o cotidiano da Trensurb, já pensou nas coisas essenciais da vida num campus da UFRGS ou já viu um fotograma na Galeria Lunara da Usina do Gasômetro, o trabalho de Leandro Selister dispensa apresentações. O artista, nesses três momentos de sua obra, ocupou-se, com maior ênfase, do espaço.

Depois disso, começa a utilizar o tempo, a expressar a noção do tempo em suas obras. São seqüências fotográficas que registram o passar do tempo. “Nos últimos dois anos defini como campo de atuação para o meu trabalho com fotografia os limites de minha casa. Uma flor que cresce, o movimento das nuvens, o amanhecer, o anoitecer, cenas do dia-a-dia que na maioria das vezes não temos tempo de observar. Aguardo o tempo passar, a vida acontecer.”* De outubro a dezembro de 2003, por exemplo, acompanhou, fotografando da janela da sua sala, um casal de sabiás desde a construção de seu ninho até o primeiro vôo do único dos três filhotes que sobreviveu. Este foi o trabalho “Tique-taque tremor das pequenas coisas” apresentado primeiramente em uma exposição e, posteriormente, transformado em livro.

Em trabalhos anteriores aos mencionados acima, as idéias de espaço e tempo ainda não estavam presentes - pelo menos na consciência do artista - do modo que utiliza hoje. No entanto, todos os trabalhos dessa época consistiam em seqüências fotográficas, na maioria das vezes auto-retratos. Em cada obra, as fotografias foram dispostas de forma seqüencial. Selister, portanto, intuitivamente, como me declarou, sempre trabalhou com seqüências. A consciência disso veio somente com os trabalhos com o tempo: as seqüências do tempo.

Contudo, Leandro, nos trabalhos em que a preocupação maior foi com o espaço, também se ocupou do tempo, ainda que fosse o tempo congelado ou cristalizado de figuras humanas verdadeiras. E nos trabalhos onde a preocupação com o tempo foi maior, a importância do espaço esteve sempre presente, seja o de sua própria casa, espaço decidido por ele como campo de atuação para a realização do seu trabalho, seja o espaço fotografado como referencial para a passagem do tempo. E, junto com tudo, a seqüência continuou existindo.

Seqüência, espaço, tempo são, portanto, elementos fundamentais e indispensáveis na obra de Leandro. No trabalho que nos apresenta nesta exposição, uma instalação que consiste no tempo passando na janela de sua sala de estar, parece-me que esses elementos encontram-se conscientemente unidos de forma igualitária, como se fosse uma síntese da obra do artista até o presente momento.

 

Marco de Araujo, Artista Plástico
Prof. Titular do Curso de Pedagogia da Arte da FUNDARTE/UERGS
Doutor em Artes Visuais na Universidad Complutense de Madrid
Curador da Exposição


* Leandro Selister, Tique-taque tremor das pequenas coisas,
Escritos, Porto Alegre, 2004.



 





66 Imagens projetadas em slides, totalizando 12 horas. (detalhe)