A ignorância da história
Fabrício Carpinejar


Balbuciar o que aconteceu nos porões da ditadura, expressar o que não pode ser confessado, procurar combinar depoimentos com o que não é suportável enxergar, cenas obscuras dos anos 70  com as  legendas do livro Brasil: Nunca Mais (Vozes, 1985) e relatos de prisioneiros políticos. A exposição no Humanitas Arte de Leandro Selister é uma denúncia sensível para tempos de indelicadeza, que reforça a reflexão durante os 40 anos do regime militar. Faz a dor se aproximar da consciência. Haverá a participação da psiquiatra Vera Lúcia Stringuini, presa durante a repressão, que conversará sobre o período.
 

Vista Geral do trabalho. Foto: Leandro Selister




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Detalhe da montagem do trabalho, onde estarão dispostas 02 fileiras de 05 classes, com as 10 imagens dispostas sobre as mesmas. Fotografia : Renata Stoduto

Clique nas imagens
para visualizá-las

 

 

 

Consciência, 2004 (Instalação)
Galeria Cultural da Biblioteca  da Unisinos
Av. Unisinos, 950 - São Leopoldo - RS


Quando recebi o convite para participar do Projeto Humanitas Arte, a Marcia Tiburi me comentou o seguinte : “ Leandro, como em abril completam-se 40 anos do Regime Militar no Brasil, podes, se quiseres, usá-lo como assunto para teu trabalho.”

O processo de criação em arte é sempre difícil, e, às vezes, trabalhar a partir de um “tema”, torna esse processo mais tranqüilo. Ao me debruçar sobre esse assunto, o que parecia tarefa fácil, tornou-se um verdadeiro labirinto, onde a entrada é clara, mas os caminhos apresentam-se tão amplos e obscuros, que tive a sensação de não conseguiria chegar ao final.

Para realizar o trabalho foi necessário recorrer aos livros, revistas, jornais e também (talvez uma das poucas vantagens do mundo globalizado) a internet. O que aconteceu a partir de minhas pesquisas e leituras, foi inversamente proporcional a quantidade de dados e informações disponíveis sobre o assunto - eu me deparava comigo mesmo, e com a incômoda sensação de que sabia muito pouco. Admitir isso foi o pior momento de todo o processo de trabalho. Como criar, se temos a sensação de que as informações de que dispomos são insuficientes para tal tarefa?


As idéias iniciais se diluíam a cada nova leitura e contato com uma época que representou sofrimento, dor, censura e medo. Partindo do princípio de que o trabalho realizado seria exposto em uma Universidade, achei que esse era o ponto principal do trabalho e então me detive nos acontecimentos do ano de 1968. Esse ano foi especial no mundo inteiro, com grandes movimentos populares, e estudantis pela mudança não só das instituições, mas também dos costumes políticos. Começavam a se reorganizar no Brasil novas oposições ao Regime Militar. Vários movimentos aconteceram, como a famosa passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro em defesa da democratização, após a morte do estudante Edson Luiz.

Em dezembro de 1968, o Presidente Costa e Silva, juntamente com o Ministro da Justiça Luiz Antônio da Gama e Silva, decreta o Ato Institucional número 5 (AI-5), fechando o Congresso, cassando mandatos e censurando a imprensa. O AI-5 vigorou até 1978, e durante esse período o país mergulharia totalmente na faceta mais terrível da ditadura.

Os diversos livros que relatam os acontecimentos desse período por vezes parecem ser apenas uma terrível história de desrespeito ao ser humano.

Tive a oportunidade de conhecer e conversar durante a elaboração deste trabalho com uma estudante que foi presa e torturada durante o Regime Militar. A partir dos seus relatos, as histórias que tinha lido passaram a ter outro significado. Era o soco na boca do estômago que faltava, para admitir que ao ignorarmos a história, ignoramos a nós mesmos, e, conseqüentemente, não temos a dimensão real do que somos.

Se olharmos a definição da palavra Ignorar no Aurélio, encontraremos : “ não ter conhecimento de; não saber.”

O trabalho que apresento no Projeto Humanitas Arte, tem por objetivo abrir feridas para que a dor se imponha à consciência e nos informe a respeito de um capítulo escuro da história de nosso País.

Na medida em que temos a consciência dos acontecimentos, estamos aptos a sonhar novamente e transformar o mundo em que vivemos.

Tarefa difícil ?
Bastante.
Mas possível

Leandro Selister, fevereiro 2004